Discurso Directo: Old Jerusalem

Depois de “Two Birds Blessing”, Old Jerusalem aventurou-se num disco com o seu próprio nome. Sem grandes sobressaltos nem mudanças de direcção em relação à música que sempre fez, o alter ego de Francisco Silva mantêm-se igual a si mesmo. Ao fim de cinco discos, Old Jerusalem é uma identidade com lugar cativo no punhado de grandes escritores de canções dos últimos tempos. Em inglês ou português. Pouco importa.

Old Jerusalem lança um disco a cada dois anos. “April” saiu em 2003 e depois seguiram-se mais discos em 2005, 2007 e 2009. Em 2011 sai “Old Jerusalem”. Isto é a tua veia matemática a funcionar ou é pura coincidência?

Não é coincidência! Há um interesse em fazer isso para pôr alguma disciplina no trabalho. As edições são independentes com budgets muito limitados e por isso estamos sempre a funcionar na corda bamba. Para manter a dinâmica das coisas tentamos fazer uma edição de dois em dois anos para manter o projecto activo.

As gravações de “Two Birds Blessing” contaram com a participação de vários músicos. Agora, neste disco, gravaste tudo sozinho. Porquê?

A meio do processo de gravação, eu e o produtor [Paulo Miranda] demos conta de que para o tipo de disco que estávamos a fazer não íamos precisar de mais contribuições. Isso começou a ser uma espécie de conceito para este disco e a linha de trabalho definida para ele.

Este é um disco um pouco mais despido, introspectivo e melancólico. É por isso um trabalho mais pessoal?

Pensando nos discos anteriores, o disco tem o mesmo nível de envolvimento pessoal. O ambiente é que é diferente e deliberadamente mais contido, mas só isso. Se calhar sugere mais essa ideia de introspecção mas, objectivamente, não o é.

Porquê um disco homónimo?

Como demos conta que íamos reduzir-nos àquilo que é o básico de Old Jerusalem, houve uma espécie de reminiscência do início do projecto porque foi no mesmo estúdio com o mesmo produtor e o mesmo músico que há dez anos gravámos a primeira demo de Old Jerusalem. Por isso, porque não chamar-lhe “Old Jerusalem”?

Há muito tempo que o nome do Paulo Miranda surge associado a Old Jerusalem. Nunca te sentiste atraído por uma nova abordagem na produção da tua música?

Sim. Essa é uma questão que é posta a cada disco mas há que pensar em vários factores. O facto de termos vindo a trabalhar de disco para disco um com o outro põe-nos bastante à vontade para resolver diversos problemas e acabamos por perder menos tempo na gravação. Isso para mim tem muito peso. Por outro lado, ele interessa-se muito por Old Jerusalem desde o seu início e o nível de envolvimento dele é absoluto.

É quase como um compromisso de honra?

Exactamente! Eu tenho a certeza que ele vai fazer tudo para que o disco acabe a soar bem e seja algo que ambos gostemos. Mas pode ter um revés que é o facto de poder tornar-se uma rotina e ser difícil sairmos da nossa caixa de pensamento. Mas é esse o desafio.

A versão de “Candy Says” dos Velvet Underground tem alguma história por trás? É um tributo teu ao Lou Reed? Como surgiu neste disco?

O “Candy Says” foi gravado para um disco de tributo aos Velvet Underground que nunca chegou a ser editado. Na definição do alinhamento para este disco senti que aquele tema encaixava bem na estética do disco. Apesar de não ser fã incondicional do Lou Reed, há temas que são incontornáveis e este sempre me agradou. Nesse aspecto acaba por ser um tributo e é uma canção como eu gostaria de escrever.

Nos últimos tempos a música cantada em português ganhou um destaque enorme. Old Jerusalem continua a cantar em inglês. Sentes-te de alguma forma ameaçado por isso?

Ameaçado é muito forte! Isto funciona muito por ciclos. Se não fosse o facto de as canções em português terem maior atenção, era o género ou o rock que voltava a estar mais na moda em detrimento de coisas mais calmas. Isso é normal. Por outro lado, se formos ver o primeiro disco que eu fiz, teve muita atenção na imprensa porque provavelmente acompanhou uma moda que estava a dar na altura e eu beneficiei com isso. Isto é natural que aconteça e não é propriamente uma ameaça. Eu gosto bastante de várias coisas editadas agora nessa linha. Seria anormal não haver em Portugal uma corrente de escrita de canções em português! Isso tem de existir e se tem mais atenção agora, perfeito! É natural que agora eu tenha um pouco menos de atenção mas é preciso avaliar as circunstâncias com alguma distância porque é o fluir natural das coisas.

Que projectos portugueses tens ouvido ultimamente?

O disco dos Dear Telephone agradou-me bastante. É um disco que eu evangelizo! É muito bom e é uma banda que me dá gosto transmitir. Também gostei muito dum ep lançado por uma banda não muito conhecida que são os Torto. Eles dão concertos muito bons! Gostava que a Mariana Ricardo editasse mais canções porque são sempre muito porreiras!

www.oldjerusalem.net

Hugo Amaral / o lado p