
Foi ontem à noite [15 de Julho]. João Peste sentado num banco alto cor de laranja, vestindo camisa branca com esbatidas riscas azuis, gravata vermelho escuro com riscas diagonais brancas e casaco azul marinheiro. Foi ontem à noite que o Music Box, em Lisboa, se transformou noutra dimensão onde conviveram todas as músicas do mundo.
Pop, bossa nova, rock, funk, pop de novo, épico pelo meio, intenso e muito, muito divertido. Soa a cliché dizer que ver um concerto de Pop Dell'Arte é como ler um poema de Álvaro de Campos? Daqueles cheios de interjeições, repetições, metáforas, onomatopeias ou oximoros (palavra chique para uma espécie de paradoxo semântico). Sem rima e sem objectivo definido. Livre e irregular. Será cliché? João Peste levanta-se de vez em quando. Fala pouco, mas as expressões falam por ele. É teatral e profundo. Sorri. Despede-se sorrateiramente, mas regressa mais duas vezes. Sorri.
São duas da manhã. Já passa. Eles continuam. Ia jurar que tocaram tudo o que era suposto. Ou talvez não. Estava demasiado absorta a gostar do concerto. Ainda regressam mais uma vez. A terceira. Há muito tempo que não via um encore a sério. "Não temos nada preparado, por isso vamos tocar o "20th Century Boy" dos T-Rex. Mas não temos nada preparado", justificava-se João Peste. Como se fosse mau. "É mesmo a última. Desculpem", disse lvantando-se de seguida e virando as costas em direcção ao interior. Agora é que acabou mesmo.
Ana Baptista / o lado p