Discurso Directo: Pop Dell'Arte

Em 1985 uns putos de Campo de Ourique deram origem a uma das bandas mais sui generis das últimas décadas. Com o nome Pop Dell’Arte ousaram desafiar o Portugal musical da altura afirmando uma visão singular da cultura pop embrulhada num caldeirão de fantasias surreais e vanguardistas. Hoje, João Peste, figura icónica dos Pop Dell’Arte, recorda a irreverência do Rock Rendez Vous em paralelo com o crescente frenesim do novo disco. Os sonhos pop continuam por aí. À distância de um “Contra Mundum”.

Em entrevistas passadas, antes da edição de um novo disco, fica a sensação de que te sentias um pouco distante em relação ao percurso dos Pop Dell’Arte. Essa atitude mudou com o regresso da banda ao activo?

Talvez na edição do “Poplastik” houvesse uma atitude um pouco mais fria. Agora estamos muito envolvidos, com concertos marcados e entrevistas agendadas. Os nossos dias estão agora muito ocupados com os Pop Dell’Arte. Tirando a formação da banda em 1985 e o lançamento do “Free Pop” e da editora Ama Romanta este é um dos períodos em que me sinto mais envolvido com a banda. A edição do “Contra Mundum” tem ocupado grande parte do meu quotidiano, coisa que não me acontecia há bastante tempo.

Há muitos anos que se antevia a edição de um novo disco sucessor de “So Goodnight”. Quando e como surgiu o click para avançarem definitivamente com a composição de “Contra Mundum”?

Quando surgiu a edição do “Poplastik” achámos que ainda não estávamos prontos para gravar um disco novo. Em 2005 fazíamos 20 anos de carreira e avançámos para uma compilação com a história dos Pop Dell’Arte reunida num só disco e juntámos três temas inéditos. Um deles, uma versão do “No Way Back”, teve uma grande aceitação e chegou a ser remisturado pelo Adónis. Esse tema acabou por aparecer em compilações internacionais. A partir daí começámos a pensar em fazer um disco novo. Algum tempo depois tínhamos vinte e tal temas. Muitos nem se podiam chamar temas. Eram só esboços e ideias. Algumas delas já existiam. Pegámos num tema [“Eastern Streets”] de 85 da primeira maqueta que nunca tinha sido gravado. É uma música da autoria da Ondina Pires, da primeira formação dos Pop Dell’Arte. O “Noite de Chuva em Campo de Ourique” também é um tema que eu já cantava ao vivo e o “Ritual Transdisco” tem como base um poema fonético que já tínhamos tentado usar no “Poplastik”.

Os discos, a imagem e a própria música dos Pop Dell’Arte sempre foram associados a correntes estéticas ligadas a um elo surrealista e vanguardista. Apesar de bastante diversificado, “Contra Mundum” tem alguma linha estética inerente?

Acho que tem a estética Pop Dell’Arte. Quando as pessoas ouvem o disco reconhecem a banda. Ao fim de 25 anos já é natural e a nossa identidade permaneceu intacta. Mas essas referências estéticas estão lá. O movimento futurista português é uma referência tão importante para nós como o futurismo italiano e russo ou o movimento Dada percursor dos poemas fonéticos. Pelo futurismo português passaram nomes de importância extrema. O Amadeu de Sousa Cardozo, o Santa Rita Pintor, o Almada Negreiros ou o Fernando Pessoa...

Até que ponto é que essas pessoas te influenciaram? São ídolos teus?

Sim. Posso dizer que sim. Gosto de saber as histórias e as biografias das pessoas e por vezes até me identificava com algumas coisas. Mas cada biografia é única! São pessoas que admiro e que são um exemplo a seguir, apesar de algumas terem vivido de uma forma desgraçada. Por muitas homenagens e estátuas que lhe façam, o Fernando Pessoa morreu em condições muito precárias à semelhança de outros artistas portugueses.

Os Pop Dell’Arte tiveram uma carreira um pouco low profile mas há muito garantiram um lugar de destaque na música portuguesa feita nas duas últimas décadas. Alguma vez recebeste um pedido de desculpas do Rui Veloso a propósito da nota zero atribuída no Rock Rendez Vous de 1985?

Acho que ele não tem de pedir desculpas por isso. Ele deu a classificação que achou que nós merecíamos e nunca o contestámos. Eu já fui júri em vários concursos e tento não fazer isso. Se aceito fazer parte de um júri tento levar isso a sério e ouvir tudo com atenção e cuidado porque as pessoas que mandam as maquetas têm muitas horas de trabalho por trás e passam por sacrifícios para gravar aquilo em condições.

Como recordas os tempos do Rock Rendez Vous e da cena musical que orbitava em Lisboa?

Era muito stressante! Mas acaba por não ser muito diferente dos tempos de hoje. Agora estamos mais velhos e temos mais noção daquilo que estamos a fazer e do que vai acontecer. Em 85 éramos putos! Quando tocámos no Rock Rendez Vous o Zé Pedro tinha 16 anos, eu era universitário e havia gente a acabar o 12º ano. Éramos putos e queríamos era tocar. Era um pouco o espírito de reunir as pessoas disponíveis para tocar nas bandas e algumas até tocavam em mais do que uma. Na altura nunca nos passou pela cabeça que passados vinte e tal anos aquele disco [“Free Pop”] que estávamos a fazer seria considerado um dos melhores discos portugueses de sempre. Agora que lançámos o “Contra Mundum” sinto um pouco esse frenesim de preparar concertos e entrevistas.

Em comparação com os dias de hoje, era mais fácil ser-se irreverente naquela altura?

Era a mesma coisa! Acho que agora até há mais abertura para as pessoas aceitarem coisas diferentes tanto a nível musical, como visual ou estético. Lembro-me de uma vez que fomos tocar fora de Lisboa e parámos no meio da estrada para ir a um restaurante qualquer, daqueles frequentados por camionistas. Ficou toda a gente a olhar para nós. Parecíamos uns marcianos que tinham acabado de entrar! E nem tínhamos um visual assim tão radical. Na altura achavam que éramos uns putos que não interessavam a ninguém. Basicamente éramos fumo sem fogo e aquilo não iria a lado nenhum. Afinal, passados 25 anos, não foi bem assim!

Os Pop Dell’Arte chegaram a acabar oficialmente?

Uma vez, dito pela minha pessoa, os Pop Dell’Arte tinham acabado! Foi um bocado teatral e sempre adorei a história do Bowie no final do concerto do Ziggy Stardust ter dito que era o último concerto da vida dele. Era puto e lembro-me de ler essa notícia mas sempre achei que aquilo era bluff! A notícia dramatizava muito a situação e ao dizer que os fãs tinham chorado tinha criado em mim um efeito de quão poderosa era uma pessoa ao estar naquele papel e dizer “não toco mais”! Passados 20 anos, com os Pop Dell’Arte no auge, deu-me na veneta e disse que a banda tinha acabado! Mas no fundo sabia que iam voltar.

Dizes-te um não músico. O que é isso afinal?

Sou uma pessoa que não tem formação musical mas que faz música. E ela está aí!

www.myspace.com/popdellarte

Hugo Amaral / o lado p