
Mazgani move-se na sombra da sua obra sem deixar rasto. Porque quem faz as coisas tem de desaparecer, diz ele. Afinal, as canções encontradas num estúdio improvisado à beira da estrada têm de falar por si. É esse o desígnio de “Song of Distance”. É esse o desejo de um homem de muitos heróis, que partilha o gozo de a sua música ter sido ouvida por Tom Waits. Nem que seja por uma única vez.
No início do teu percurso enquanto músico, a revista Les Inrockuptibles distinguiu-te como um dos 20 artistas mais promissores da altura. Mais recentemente conseguiste o terceiro lugar no International Songwriting Contest num universo de 15 mil canções. Que impacto tiveram essas distinções na tua ainda curta carreira?
Estes dois pequenos episódios são de alturas distintas. No caso do Les Inrockuptibles, eu lia a revista e mandei para lá uma maquete. De repente começo a receber correspondência deles e vejo o meu nome publicado na revista e a falarem muito bem da minha música! No início foi importante para deixar de olhar para fora à procura de aprovação. No International Songwriting Contest o momento gratificante desta história é saber que um herói meu, o Tom Waits [um dos elementos do júri do concurso], poderá ter ouvido a minha música. Esse foi o propósito para participar no concurso! O reconhecimento é importante mas o gozo era imaginar o Tom Waits a carregar no botão de play na aparelhagem dele como eu já fiz milhares de vezes com os seus discos.
Diria que “Song of the New Heart” é um disco melancólico e introspectivo. “Tell the People” será algo mais cru e áspero. Como defines “Song of Distance”?
Tenho alguma dificuldade em definir a minha obra e se a conseguisse definir acho que não o fazia. Acho que é justo dizer que as canções, em certa medida, são encontradas. Quem tem a sorte de se cruzar com elas pouco pode fazer para as definir.
“Song of Distance” foi gravado em Vila Velha de Ródão. Como foste lá parar? Sentiste alguma necessidade de te afastares da cidade e procurar uma certa ruralidade?
Houve a procura de um elemento estético que essa geografia podia oferecer. O estúdio foi improvisado num espaço que está preparado para receber companhias de dança e teatro e onde o som não está tratado. Montámos lá os nossos microfones e captámos uma experiência, um momento naquele espaço concreto. O que as pessoas ouvem no disco é muito próximo de tudo o que aconteceu. As músicas foram quase todas gravadas ao primeiro take e é muito despojado nesse sentido. Depois, também pelo elemento de recolhimento que essa residência de artistas nos ofereceu.
“Tell the People” foi editado na Bélgica, Luxemburgo, Holanda e Escandinávia. “Song of Distance” segue o mesmo caminho?
A ideia é essa. Não sei precisar como é que as coisas se vão organizar mas queremos continuar a trilhar este território fora de portas. A ideia é continuar a fazer digressões e eventualmente alargar esse território.
Ainda é difícil promover a música portuguesa no estrangeiro?
Em termos criativos penso que as coisas nunca estiveram tão bem e já não se diz ”para português até é bom”. Agora ouvimos um disco que pode ter sido gravado em qualquer parte do mundo. Quando eu comecei a ouvir discos ainda havia um hiato imenso e pedia a amigos que iam a Londres para trazerem discos.
A tua música abraça os blues, um pouco daquela ambiência gospel e todas as raízes musicais norte americanas. Nunca sentiste necessidade de te aproximares das tuas raízes iranianas, musicalmente falando?
Como homem sinto-me próximo das minhas raízes. Falo farsi em casa e os meus pais sempre tentaram transmitir-me as coisas de lá, a poesia, a música e tudo aquilo que eles achavam bonito. Agora, a música no Irão é uma coisa muito séria, no sentido em que é uma tradição extremamente exigente que envolve uma vida de labor intensivo e passa de mestre para discípulo, de pai para filho.
Quase como uma herança?
Aquele material explosivo obriga a um labor tremendo! É muito exigente e muito rico. Eu sou um tipo muito preguiçoso e jamais faria uma coisa dessas! Houve um mestre de caligrafia japonês que aos 80 anos disse “se Deus me desse mais cinco anos, eu tornar-me-ia um artista”. Isto é muito próximo da postura que os músicos iranianos têm perante a sua arte.
Qual é a tua relação com a religião? Ela influencia de alguma forma a escrita das tuas canções?
Eu sou um homem crente. Sou Bahá’í e isso determina a minha forma de ver o mundo e nessa medida poderá determinar as minhas canções. Mas penso que não seja evidente ao ouvinte que sou Bahá’í quando as ouve. A religião Bahá’í traz uma ideia de unidade. Unidade de religiões e unidade da humanidade. Muito modestamente gostava que as minhas canções fossem inclusivas e servissem a quem viesse também. Gostava que a história que me leva a escrevê-las desaparecesse e permitisse que o outro trouxesse a sua história.
Por isso, numa entrevista recente, dizes que a tua biografia não interessa para nada? Porquê?
Porque quem faz as coisas tem de desaparecer. Se eu deixar rasto de mim no que faço é porque estou a fazer algo errado. É essa a ideia. Se fosse evidente que era um iraniano de Setúbal que canta as canções do disco é porque ele era um desastre tremendo!
Hugo Amaral / o lado p